NARCÓTICOS ANÓNIMOS
Região Portuguesa

Quadro de Custódios do Serviço Mundial Boletim no 27

HIV E SIDA EM N.A.

Este artigo foi elaborado pelo Quadro de Custódios do Serviço Mundial, em Abril de 1993, em resposta às necessidades da irmandade. Representa a visão deste quadro à época em que foi escrito.

Qualquer doença que ameace a vida leva-nos a trabalhar o nosso programa com rigor, quer sejamos nós mesmos os afligidos, quer estejamos apoiando um companheiro que sofra dela. HIV e AIDS tornaram-se uma realidade na comunidade de recuperação de NA. O paradoxo desta doença, como o da própria doença da adicção, é a necessidade de pertencer, embora já se sentindo separado. O peso de ter que lidar com uma doença potencialmente fatal que atinge tantos adictos, aliada à própria doença da adicção, pode ser opressivo. Não surpreende que, em períodos como esses, nos perguntemos se vale a pena continuar em recuperação. No nosso momento potencialmente mais fraco, precisamos mais do que nunca da força encontrada na nossa Irmandade.

HIV e SIDA afectam a todos em NA. O medo do vírus pode permitir que se manifestem defeitos, como egocentrismo, negação, racionalização e o instinto de fuga. Nesses períodos temos que continuar nos guiando pelos princípios espirituais que possibilitaram a nossa recuperação e que fortalecem nossos grupos.

Alguns consideram HIV e SIDA em NA uma questão alheia - um assunto que não deve ser discutido por medo de que venha a diluir nossa mensagem de recuperação da adicção a drogas. Esse ponto de vista não foi expresso em nenhuma publicação de nível mundial, porem ficou implícita através do silêncio. Nossa falta de orientação, aliada à ignorância a respeito do vírus e uma interpretação frequentemente inflexível das Tradições, levam muitos grupos e comités a rotularem HIV e SIDA como questões alheias. Mesmo que diversas questões acerca do HIV e SIDA possam realmente ser questões alheias, a experiência de adictos em recuperação com HIV não é.

Muitas vezes os comités responsáveis por convenções, dias de aprendizagem, oficinas, etc., foram orientados a não incluir HIV/SIDA como tópico. Nosso raciocínio baseou-se na falta de experiência e medo. Em vez disso fomos orientados a discutir tópicos a respeito de doenças em geral que ameaçam a vida. Às vezes isso era feito por medo de que os participantes de uma reunião temática sobre SIDA acabassem discutindo o tratamento médico ou as ramificações políticas da doença. Enquanto que alguns desses medos poderiam ter alguma base real, a mente aberta nos mantém focalizados na nossa experiência, força e esperança compartilhadas.

Existe uma série de questões relacionadas a HIV e SIDA que são questões alheias; por exemplo, oferecer informação médica, educar adictos no activo sobre desinfecção de agulhas ou endossar a disponibilidade de agulhas limpas, apoiar ou se opor às propostas de quarentena relativa à SIDA, encorajando métodos específicos de sexo seguro ou comentando sobre os méritos da campanha "Apenas diga não", que visa limitar a propagação da SIDA. O envolvimento em qualquer uma dessas actividades, sem dúvida, arrastaria o nome de NA em controvérsia pública. E isso, certamente, comprometeria nossa capacidade de levar a mensagem de recuperação da adicção.

Porém, existem mais do que assuntos alheios com relação a HIV e SIDA em NA. Este vírus trouxe tensão aos nossos relacionamentos. O desespero está mais próximo para alguns de nós do que para outros, e as nossas preces do "Só por Hoje" se tornam muito mais relevantes. Qualquer um que tenha obtido um entendimento prático de "viver o presente" tem alguma experiência, força e esperança incrível para partilhar com todos nós. Embora convivamos todos com a ameaça fatal da doença da adicção, aqueles de nós com HIV e SIDA possuem por vezes uma maior consciência de viver só por hoje. Todos podemos ganhar, partilhando e estando abertos para uma compreensão de novos aspectos de impotência e rendição.

Enquanto na adicção activa, todos enfrentávamos uma doença que ameaçava a vida, em recuperação, membros de NA continuaram historicamente a enfrentar outras dessas doenças, mas nunca na extensão que se encontra hoje. Alguns dos nossos grupos em áreas urbanas estão tendo um percentual muito alto de membros com HIV ou SIDA.

Quando inicialmente se defrontaram com essas quantidades monumentais, alguns de nossos grupos cometeram erros. Medo e ignorância distanciaram grupos e membros do princípio da mente aberta e da habilidade de zelar por todos os seus membros. Muito pior do que isso foi o isolamento sentido pelos membros vivendo com o vírus. A recuperação nesta irmandade pode ser suficientemente penosa quando somos aceites. Quando rejeitados, a recuperação pode parecer impossível.

De acordo com a nossa Terceira Tradição, o único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de usar drogas. Nada mais, nada menos. Parece simples o suficiente de lembrar, mas o medo e a ignorância podem ser fortes influências. Grupos que começaram a vivenciar um grande número de membros que era HIV positivo aprenderam que, quando existe um "nós" e um "eles", alguém está sendo tratado de forma diferente e nossos grupos sofrem. Esses grupos aprenderam que a sobrevivência de um grupo depende da autonomia, anonimato, unidade e da nossa Quinta Tradição. O propósito de um grupo deve permanecer constante: levar a mensagem de recuperação aos adictos que ainda sofrem. Tendo aprendido por meio desses erros, tais grupos podem compreender esta Tradição melhor que a maioria, pois os tópicos das reuniões, embora muitas vezes reflectindo nossa luta com HIV e SIDA, são centrados na recuperação da adicção.

"O anonimato é o alicerce espiritual de todas as Tradições." Podemos precisar nos lembrar de usar cautela no relato de algumas das nossas experiências. Alguns membros podem achar que precisam partilhar sobre sua doença apenas com seu padrinho ou madrinha ou com companheiros próximos, enquanto outros optam por discutir sua experiência com HIV ou SIDA abertamente nas reuniões. Teoricamente, uma reunião é um refúgio onde todos podemos nos sentir seguros para partilhar. Porém, quer partilhemos em particular, quer numa reunião, o importante é que partilhemos.

Alguns de nós com HIV ou SIDA chegam em NA com sistemas imunológicos enfraquecidos. Às vezes podemos não conseguir chegar às reuniões ou estar doente demais até mesmo para sair. Podemos estar lidando com a necessidade de tomar medicamentos. Parte da nossa literatura, tais como "Em Tempos de Doença" e o Décimo Capítulo do nosso Texto Básico, oferece experiências para quando temos de lidar com médicos e medicação na nossa recuperação. Para aqueles que estão hospitalizados ou acamados em casa, temos publicações como The NA Way Magazine e Meeting by Mail.

Se acreditamos que um adicto partilhando com outro é sem paralelo, então precisamos entender que este conceito se aplica não somente nos momentos de alegria, mas também nos momentos de desgosto e sofrimento. Na nossa consideração da questão do HIV/SIDA, sejamos honestos, tenhamos a mente aberta, sejamos solidários e carinhosos. Vamos nos unir para aprender, unir em nossas preces e no espírito do amor, para que nossa ignorância possa ser substituída pela mente aberta e boa vontade para aprender.

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