NARCÓTICOS ANÓNIMOS
Região Portuguesa

Quadro de Custódios do Serviço Mundial Boletim no 23

Participação e Tomada de Decisão na Conferência de Serviço Mundial

Por mais de dez anos, membros de Narcóticos Anónimos debateram a questão de quem deveria participar nos processos de tomada de decisão da nossa Conferência de Serviço Mundial. Alguns acreditam que todas as decisões da conferência deveriam ser feitas directamente pelos grupos de NA, e somente pelos grupos. Outros acham que todos os membros da conferência deveriam participar plenamente em todas as fases de seus processos de tomada de decisão, da discussão à votação.

Como uma irmandade, não reconhecemos nenhuma regra de participação estrita e directa a ser aplicada por todo Narcóticos Anónimos. Em 1989, nossa Conferência de Serviço Mundial aprovou de forma esmagadora uma moção que substituiu a linguagem restritiva sobre votação local encontrada no Guia Temporário de Trabalho para Nossa Estrutura de Serviço com palavras que dão margem a variações na prática local:

"Os RSG's são os únicos membros votantes nas reuniões dos Comités de Serviço de Área (CSA); RSA's são os únicos membros votantes nas reuniões dos Comités de Serviço Regional (CSR)..." foi substituído por, "Embora directrizes individuais de área e região variem em relação a quais participantes podem votar..."

Entretanto, no que diz respeito à participação na votação da Conferência de Serviço Mundial (CMS) a história tem sido diferente. De 1982 até 1987, várias moções acompanhadas de calorosos debates foram apresentadas para limitar a votação da CMS aos RSR's. Uma moção de 1982, apresentada à discussão até 1983, foi rejeitada por dois terços dos participantes com direito a voto. Em 1984, cada uma das quatro moções relacionadas com voto na conferência foi derrotada por uma média de 80% de todos os participantes com direito a voto. No ano seguinte, quando ainda uma outra moção sobre direito a voto foi elaborada, dois terços completos dos participantes da conferência se recusaram até mesmo a considerá-la. Com isso, muitos membros acreditaram que o assunto estava encerrado. Eles estavam enganados.

Em 1987, uma outra moção foi redigida para restringir o direito a voto na conferência aos RSR's. Apresentada para o ano seguinte, a moção apareceu no Conference Agenda Report (Relatório da Agenda da Conferência). Um pacote com papéis contra e a favor da moção foi fartamente distribuído pelo Comité de Procedimentos da CMS, e o Quadro de Custódios do Serviço Mundial preparou sua própria declaração sobre a questão. Em seguida à ampla discussão do assunto no âmbito da irmandade, a conferência rejeitou a moção, com 27 participantes (36%) votando a favor, 40 (53%) contra e 9 (12%) abstenções. Uma análise da votação revelou uma tremenda disparidade de opinião entre RSR's e os outros participantes da conferência com direito a voto. Os RSR's estavam divididos quanto à moção de forma bastante equilibrada, com 27 votando sim, 24 não e 7 abstenções. Entretanto, os custódios, funcionários administrativos da conferência e coordenadores dos comités eram virtualmente unânimes na oposição à moção, com 16 votando não e 2 abstenções. Os RSR's depositaram todos os votos a favor da moção; 40% dos votos contra foram depositados pelos não RSR's. Nitidamente, o assunto não havia de maneira nenhuma sido resolvido de forma definitiva.

Três anos depois, a moção para restringir o direito a voto na CMS aos RSR's foi reavivada. Não foi dado aos participantes da conferência a oportunidade de debater este assunto por um período de tempo significativo, antes da votação da moção. A moção foi apresentada bem no final do último de sete longos dias de conferência. A votação da moção de 1991 revelou um aumento total de 12% em apoio à restrição do direito a voto na conferência, em comparação com a votação de 1988, com 35 cédulas sim (48%), 28 não (38%) e 10 abstenções (14%). Os RSR's votaram 31 sim e 21 não, com 5 abstenções, um aumento de 10% em apoio às restrições do direito a voto. Talvez o mais significativo tenha sido a marcante mudança nos votos depositados por funcionários administrativos da conferência, coordenadores dos comités e custódios. Um quarto desses servidores de confiança votou em favor da moção de 1991, enquanto que nenhum tinha aprovado a proposta de 1988; menos da metade votou contra, e quase um terço se absteve. A falta de um debate adequado poderia justificar parte das mudanças em favor das restrições ao voto, mas certamente não todas. O movimento para limitar o direito a voto na conferência aos RSR's, que decididamente não foi enterrado com a reunião da CMS de 1988, parecia estar ganhando força.

Evidentemente, a questão de quem deve votar na Conferência de Serviço Mundial ainda está em aberto, precisando ser mais discutida. Esperamos que sua comunidade de NA venha a discutir plenamente este assunto. Nosso quadro acredita que a questão do direito a voto não é de modo algum uma questão simples, e que existem diversos assuntos que precisam ser considerados em relação a ela. Este assunto será um tópico em um dos painéis apresentados pelo WSB (Quadro de Custódios do Serviço Mundial) na CMS de 92. Da melhor maneira possível, apresentamos abaixo alguns dos argumentos que, a nosso ver, necessitam ser abordados quando se considera a questão do direito a voto, junto com breves sumários dos pontos de vista opostos sobre cada assunto. Apesar de não serem os únicos argumentos, demonstram a polaridade de opiniões assumidas por membros dentro da nossa irmandade. Esperamos que esses argumentos sejam úteis para vocês nas discussões de sua comunidade sobre o direito a voto, enquanto se preparam para a reunião da Conferência de Serviço Mundial, em Dallas, em Abril deste ano.

Consciência colectiva


RSR apenas: "Nossa Segunda Tradição diz que Deus fala para a nossa estrutura de serviço apenas através da consciência desenvolvida em nossos grupos. As decisões registradas na Conferência de Serviço Mundial deveriam reflectir apenas a consciência integrada dos grupos, como expressa pelos votos dos RSR's."

Todos os participantes da CMS: "A Conferência de Serviço Mundial desenvolve uma consciência colectiva quando seus membros se reúnem para consultar suas consciências, buscar a orientação de Deus e tomar decisões. Essa consciência colectiva é desenvolvida a partir da discussão entre todos os membros da conferência e é expressa pelo voto combinado de todos os participantes da conferência."

Autoridade de membros, grupos


RSR apenas: "Ao contrário de algumas organizações, nossos membros e nossos grupos têm a autoridade final em NA. Apenas aqueles que representam membros e grupos deveriam votar na conferência. Se servidores de confiança que não são RSR's votam na CMS, eles diluem a autoridade dos grupos de NA."

Todos os participantes da CMS: Os membros e grupos são responsáveis pelo nosso bem-estar comum, e a autonomia de grupo não deveria afectar NA como um todo. Com plena participação, os interesses e a autoridade de membros e grupos na conferência são expressos pelos RSR's; a experiência especializada de outros servidores de confiança é combinada na mistura da CMS; o resultado é um equilibrado processo de tomada de decisão da conferência, que serve melhor ao nosso propósito primordial."

Liderança


RSR apenas: "Nossos "líderes" são apenas servidores de confiança, obtendo sua orientação da consciência dos grupos. Ao dar aos funcionários da conferência, comités e custódios directrizes para o cumprimento de suas responsabilidades, apenas RSR's deveriam votar, porque somente eles falam pelos grupos."

Todos os participantes da CMS: "Seleccionamos cuidadosamente nossos líderes da CMS para nos servir. Quando a conferência toma decisões, queremos pleno acesso aos insights e experiência especializada dos funcionários da conferência, coordenadores dos comités e custódios. Permitimos a eles participarem plenamente em todas as fases do processo de tomada de decisão da CMS."

Representação directa


RSR apenas: "Porque a autoridade de serviço em NA surge dos membros e grupos de NA, as decisões da conferência devem ser tomadas na base de uma única representatividade. Outros servidores de confiança não deveriam votar nas decisões da CMS, porque eles não representam a consciência de nenhum grupo de NA."

Todos os participantes da CMS: Se a CMS fosse o governo de NA, promulgando leis e recolhendo impostos, iríamos querer um processo de tomada de decisão representativo, na conferência. Também iríamos querer uma divisão melhor proporcionada para representação; hoje, uma região com 60 grupos tem o mesmo poder de CMS que uma região com 600 grupos. No entanto, o interesse da conferência não é o de promulgar leis e recolher impostos, mas o de servir. Uma mistura de representação e experiência especializada produz as mais equilibradas decisões de conferência para NA."

Prestação de contas


RSR apenas: "Quando coordenadores dos comités, custódios e funcionários da CMS votam nas decisões de serviço, eles estabelecem seus próprios termos sobre quão responsáveis devem ser considerados. Isto é inadequado. Funcionários, custódios e comités deveriam basear seus objectivos nas decisões votadas por aqueles que representam os grupos - os RSR's -, estabelecendo a que grau estes servidores de confiança serão considerados responsáveis pelos seus deveres."

Todos os participantes da CMS: "A não ser que funcionários da conferência, coordenadores dos comités e custódios tomem parte na votação das decisões da CMS, eles não podem ser considerados responsáveis pelas consequências dessas decisões, porque não são co-responsáveis por elas."

Inclusão, igualdade, anonimato


RSR apenas: "Todos os membros de NA participam igualmente de forma anónima nos processos de tomada de decisão da conferência, através de votação nos seus grupos locais. Quando RSR's votam na conferência, expressam igualmente a consciência colectiva reunida de todas as comunidades de NA. Permitir a outros servidores de confiança um voto especial viola o princípio espiritual de anonimato, investindo alguns poucos membros com direitos que não são dados à maioria dos membros.

Todos os participantes da CMS: "Funcionários, coordenadores dos comités e custódios deveriam ter os mesmos direitos como membros representantes da CMS. Exclui-los de plena participação na conferência torna-os menos do que membros iguais da CMS, especialmente colocados à parte de outros membros. Isto é inconsistente com o espírito de anonimato."

Decisões equilibradas, propósito primordial


RSR apenas: "Decisões equilibradas servem melhor ao nosso propósito primordial. Decisões de serviço equilibradas só podem ser feitas por aqueles que não têm um interesse pessoal nos resultados. Decisões da conferência feitas pelos representantes dos grupos de NA - RSR's - são equilibradas porque são objectivas."

Todos os participantes da CMS: "Representantes, custódios, comités e funcionários, todos têm interesses nas decisões da conferência. Todos, no entanto, servem em primeiro lugar ao melhor dos interesses de NA como um todo. O insight e a experiência tanto de RSR's quanto de outros servidores de confiança são elementos necessários para discussões de serviço equilibradas."

Natureza da CMS


RSR apenas: "A Conferência de Serviço Mundial existe para realizar os objectivos dos grupos. Os RSR's reúnem os votos dos grupos de NA na conferência. As discussões são necessárias apenas para prover novas informações."

Todos os participantes da CMS: "A conferência existe para reunir a melhor informação disponível sobre os assuntos em pauta. Para que boas decisões sejam tomadas, todos devem ter a capacidade de votar baseando-se nas informações apresentadas nas discussões da conferência, não apenas em instruções prévias."

Participação parcial


RSR apenas: "Custódios, coordenadores dos comités da CMS e funcionários da conferência deveriam oferecer insight e informações nas discussões que moldam uma consciência colectiva, mas somente RSR's deveriam votar expressando uma consciência colectiva."

Todos os participantes da CMS: "Se é importante incluir custódios, coordenadores dos comités e funcionários da CMS nas discussões, então é igualmente importante inclui-los nas decisões que surgem dessas discussões. Caso contrário, os votos da CMS não representam o círculo total da consciência colectiva da conferência, mas apenas um pedaço dele.

"...nunca deverá organizar-se..."


RSR apenas: "Responsabilidade, não autoridade, é delegada pelos grupos à Conferência de Serviço Mundial. A autoridade da tomada de decisão encontra-se apenas com os grupos. Restringindo o direito de voto na conferência apenas aos RSR's, mantemos nossos grupos directamente envolvidos em todas as decisões da nossa irmandade."

Todos os participantes da CMS: "Quando os grupos não delegam autoridade de tomada de decisão à conferência, eles devem se tornar altamente organizados para poder avaliar os assuntos da CMS e tomar decisões. Isto afasta os grupos de seu propósito primordial."

Esperamos que os exemplos acima sobre alguns dos diferentes pontos de vista em toda parte de nossa irmandade tenham ajudado as comunidades locais em suas discussões deste tópico. Já que existe representação em ambos os lados desta questão dentro do Quadro de Custódios do Serviço Mundial, este poderia desenvolver um texto abrangente após a discussão da CMS de 92, apresentando ambos os pontos de vista a favor e contra, se a conferência achar que um texto desses seria de utilidade.

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