NARCÓTICOS ANÓNIMOS
Região Portuguesa

Quadro de Custódios do Serviço Mundial Boletim no 21

A Geração de Recursos (levantamento de recursos) e
a Sétima Tradição em Narcóticos Anónimos


Este artigo foi elaborado pelo Quadro de Custódios do Serviço Mundial, em Abril de 1993, em resposta às necessidades da irmandade. Representa a visão deste quadro à época em que foi escrito.

Perguntas sobre levantamento de recursos e como isso se relaciona com as tradições, especialmente com a Tradição Sete, "Todo grupo de NA deverá ser totalmente auto-sustentável, recusando contribuições de fora", foram formuladas em diversas ocasiões, nos últimos anos. À medida que grupos, áreas e regiões crescem, a necessidade visível de finanças para ajudar a cumprir com a Quinta Tradição, "Cada grupo tem apenas um único propósito primordial - levar a mensagem ao adicto que ainda sofre", poderá também aumentar. Quando o custo de serviços auxiliares - tais como linhas de ajuda, listas de reuniões e literatura para ser utilizada em reuniões de HI, entre outras - é considerado, muitos grupos, áreas e regiões se encontram em posição de necessitar ou querer mais recursos do que aqueles fornecidos a nível de grupo, pelas doações dos seus membros. São nessas épocas que surgem as perguntas sobre como financiar os serviços que ajudam a levar nossa mensagem ao adicto que ainda sofre. Este artigo tentará responder a algumas dessas perguntas como também oferecer algumas directrizes simples sobre levantamento de recursos. Tentaremos fornecer uma breve perspectiva histórica sobre o levantamento de recursos em NA, passaremos os olhos em alguns dos problemas que podem resultar dos vários esforços e nos empenharemos para mostrar a relação da Sétima Tradição com este assunto.

Ao abordarmos este tópico, é útil entender como o levantamento de recursos teve início em nossa irmandade. Muitos dos primeiros grupos realizavam uma variedade de actividades, tais como jantares, piqueniques e outros eventos sociais, para promover a recuperação, unidade e um senso de pertencer. Enquanto que essas actividades não tinham a intenção específica de levantar recursos, ocorreu de algumas delas se tornarem financeiramente bem sucedidas, permitindo ao grupo anfitrião comprar literatura adicional ou outros suprimentos para as suas reuniões. À medida que a irmandade cresceu e a necessidade ou vontade de serviços adicionais tornou-se maior, o propósito de algumas dessas actividades mudou; ao invés de celebrarem a recuperação, eram planejadas para levantar recursos.

À medida que a irmandade continuou a crescer e mais comités de serviço de área ou regional foram se formando, o foco continuou a mudar - algumas vezes para compensar a visível falta de recursos que eram doados no recolhimento da Sétima Tradição dos grupos. Com o passar do tempo, mais e mais comités de serviço começaram a depender desta forma de financiamento, às vezes chegando ao ponto em que o sucesso ou fracasso de certo evento, tal como uma convenção, determinava a capacidade da área ou da região de fornecer serviços e participar do fluxo de recursos. Em outras ocasiões, grupos, áreas e regiões tiveram um tal sucesso com seus eventos sociais que começaram a investir uma quantidade enorme de tempo e energia nestas actividades, tornando-se devotados a ter uma convenção, baile ou acampamento "bem sucedidos".

Um considerável número de problemas surgiu de práticas como estas. A prestação de contas dos comités de serviços aos seus grupos foi afectada, na medida em que os comités começaram a depender desses eventos, em vez de depender das contribuições advindas do recolhimento da Sétima Tradição dos grupos para seus financiamentos. Em alguns casos, os vários corpos de serviço começaram a se desviar do seu propósito original, por "dinheiro, propriedade e prestígio". Alguns grupos e comités de serviço começaram a acumular imensas "reservas prudentes", em alguns casos atingindo a quantia de muitos milhares de dólares. Para alguns grupos e comités esta "reserva prudente" cresceu tanto que o corpo que a detinha não precisava depender de contribuições por um período de até seis meses ou mais, apesar do fato de que em várias publicações de serviço da irmandade a quantidade recomendada para uma reserva prudente são as despesas de um mês. Esforços comerciais se tornaram um "negócio" em alguns casos, nos afastando do foco espiritual do nosso programa. Nos vários eventos sociais, foi ficando cada vez mais difícil ter certeza de que as doações à nossa irmandade advinham apenas de nossos membros. E alguns membros começaram a ficar preocupados que pudéssemos ser percebidos por aqueles de fora do nosso programa, como uma irmandade que está mais envolvida com funções sociais e esforços comerciais do que com ajudar adictos a se recuperarem da doença da adicção. À medida que estes problemas se tornaram aparentes, membros começaram a partilhar suas preocupações e a questionar as necessidades dessas práticas. Algumas das questões focalizaram na relação entre a Sétima Tradição e o levantamento de recursos.

Enquanto que esta tradição fala especificamente de auto-sustento - recusando doações de fontes externas - alguns dos princípios subjacentes à tradição, tais como simplicidade e fé, poderão se provar úteis para responder às perguntas sobre financiamento dos nossos serviços. Nossa experiência demonstrou que, como adictos em recuperação, todas as nossas necessidades se resumem à necessidade de liberdade contínua da adicção activa. Para alcançar esta liberdade, precisamos dos princípios contidos nos Doze Passos e nas Doze Tradições de NA, reuniões de recuperação onde podemos partilhar nossa experiência, força e esperança, e de outros adictos em recuperação para nos ajudarem a aplicar estes princípios em nossas vidas. Estas três coisas são simples; elas não requerem que obtenhamos diplomas de curso superior nem que despendamos largas somas de dinheiro.

Na nossa adicção activa, a maioria de nós parecia ter uma coisa em comum: egocentrismo. Quando começamos o processo de recuperação, aprendemos que "conservamos o que temos, dando". Começamos a aprender o valor de ser um membro contribuinte da nossa irmandade e da sociedade como um todo. Começamos a aprender a simples verdade que, se queremos continuar a frequentar as reuniões de NA e ajudar a levar a mensagem, precisamos contribuir com nossa justa parte, tanto financeiramente quanto com nosso tempo e energia. Auto-sustento, dentro do contexto da Tradição Sete, vai muito além de mero apoio financeiro. Ao longo do caminho, aprendemos que contribuir com nossa justa parte é um meio pelo qual podemos expressar nossa gratidão pelo que nos foi dado gratuitamente. Com o tempo, desenvolvemos a fé em que, contanto que estejamos fazendo o que devemos - praticando os princípios do nosso programa -, o Deus de nossa compreensão tomará conta de nós e nos mostrará uma nova maneira de viver.

Quando olhamos para as necessidades do grupo, mais uma vez a simplicidade vem à mente. Nossas necessidades são simples: um lugar onde podemos realizar nossas reuniões, literatura para ajudar a levar nossa mensagem e, em muitos casos, simples refrescos. Não precisamos de instalações espaçosas e luxuosas para as reuniões, quantidade excessiva de literatura ou refrescos de todo tipo para atrair adictos às nossas reuniões. A simplicidade da nossa mensagem e a eficiência do nosso programa são suficientes. Não precisamos de grandes reservas financeiras, se temos fé que o Deus de nossa compreensão tomará conta das nossas necessidades. Nossa experiência demonstrou que, quando as necessidades financeiras de um grupo não são equacionadas e este fato é comunicado aos membros, em geral estas necessidades são supridas. A simplicidade das nossas necessidades é reforçada pela simplicidade do nosso propósito primordial - levar a mensagem ao adicto que ainda sofre. Nossa experiência demonstrou que devemos realizar esta simples tarefa da melhor maneira que podemos, pois ela é a própria essência de quem somos e o que fazemos em NA. Descobrimos que, se tudo que fazemos é feito para cumprir este propósito, geralmente, encontraremos os recursos necessários para fazermos o que devemos.

Muitos grupos e comités de serviço decidiram evitar controvérsia, buscando simplesmente levar a mensagem ao adicto que ainda sofre. Desta maneira, eles dependem somente de atrair novos membros para seus grupos, se empenhando em fortalecer sua recuperação pessoal, trabalhando e vivendo os Doze Passos de NA. À medida que novos membros são atraídos, os grupos crescem, o recolhimento da Sétima Tradição aumenta e tem mais dinheiro disponível para as necessidades do grupo. Consequentemente, os recursos em excesso são acumulados e repassados para a área, região e serviços mundiais, como pelo nosso sugerido sistema de fluxo de recursos. (Para maiores informações sobre este assunto, por favor refira-se ao IP No. 24: "Ei! Para que serve o dinheiro?") À medida que os serviços são financiados com mais eficiência, a mensagem de recuperação de NA é levada melhor e mais longe do que antes. O resultado é que mais adictos buscam recuperação através de Narcóticos Anónimos e mais reuniões de NA têm início. Esta abordagem é vista como prática e realista por muitos membros da nossa irmandade. Estes membros relataram que a frustração pela falta de dinheiro e o senso de urgência em levantar recursos podem ser contrabalançados pela unidade espiritual que resulta deste foco no nosso propósito primordial.

Uma das coisas que se tornou evidente nos últimos anos, no entanto, é que amplos segmentos da irmandade querem actividades e comércio. Se não auxiliarmos nesses esforços, membros podem acabar realizando-as por si mesmo. Sempre que isto ocorreu, os problemas resultantes tiveram considerável impacto sobre todos os elementos de NA, afectando o sucesso total de nossa irmandade em cumprir seu propósito primordial. Acreditamos fortemente que actividades de levantamento de recursos que nos afastam da natureza espiritual do nosso programa são inadequadas e não deveriam ser encorajadas dentro da irmandade. No entanto, actividades sociais elaboradas para intensificar a recuperação e aprofundar a unidade e o senso de pertencer dos membros não apenas são aceitáveis como deveriam ser encorajadas. Acreditamos que, na melhor das hipóteses, levantar recursos pelo bem de levantar recursos é questionável. No entanto, podem haver épocas em que um grupo ou comité de serviço se depara com extraordinárias restrições financeiras e começa a considerar a realização de um evento para levantar recursos. Nessas épocas, sugerimos que cuidadosa atenção seja dada às seguintes perguntas: Os recursos recolhidos das contribuições comuns da Sétima Tradição são suficientes para sustentar as actuais necessidades do grupo ou comité de serviço? As vontades estão suplantando as necessidades? A necessidade do evento para levantar recursos é de tal natureza que não realizá-lo resultaria no não cumprimento do nosso propósito primordial? Além destas perguntas, recomendamos que todos os aspectos de patrocinar um evento para levantar recursos sejam cuidadosamente considerados.

Quando esses eventos são realizados, membros do grupo ou comité de serviço anfitrião deveriam examinar o evento no que diz respeito a todas as nossas tradições, emprestando sua experiência, força e esperança colectivas a esses exames. Um dos pontos principais a considerar é a motivação para realizar um evento desses. Um exame como esse ajuda a nos mantermos em sintonia com nossos princípios. Os seguintes conceitos gerais surgiram da experiência da nossa irmandade, e os apresentamos aqui como pontos iniciais para sua consideração:

1. Actividades de levantamento de recursos em reuniões de NA geralmente não são apropriadas, porque elas podem nos desviar do nosso propósito primordial e podem apresentar uma impressão inexacta da mensagem de NA, especialmente aos olhos do recém-chegado ou do visitante não adicto.

2. De maneira a seguir a orientação das nossas tradições, um evento para levantar recursos deveria ser planejado e realizado por e para os membros de Narcóticos Anónimos.

3. De maneira a se conformar aos ideais da Sétima Tradição, doações de pessoas que não são membros não deveriam ser aceitas.

4. Já que muitas vezes patrocinamos actividades onde existe um preço fixo para participação plena, o termo "doação" não deveria estar associado com esses tipos de cobrança. Deste modo, não estaremos confundindo contribuições com o preço pago pelo acesso às actividades.

5. Deve ser determinado se a comunidade de NA local deseja e é grande o bastante para apoiar o evento.

6. Todos os aspectos do evento para levantar recursos deveriam ser consistentes com nosso objectivo de encorajar a recuperação da adicção. Deveríamos evitar ser anfitriões de eventos que possam encorajar apostas, que pareçam oferecer "alguma coisa por nada", ou conferir prémios que sejam ou não orientados para a recuperação ou que, por outro lado, possam ser considerados como inadequados. Por exemplo, o prémio de uma rifa, tal como um carro ou um televisor, poderia tornar as condições de vida mais confortáveis para quem o recebe, mas, ao mesmo tempo, pode não estar directamente relacionado com sua recuperação, enquanto que ganhar literatura de NA ou ingressos para uma oficina ou convenção de NA seria um prémio orientado para a recuperação. Também deve ser notado que em muitos estados dos EUA e em alguns outros países as rifas são ilegais. Também pode ser útil considerar se as rifas - e especialmente rifas de dinheiro ou lotarias - não se relacionam mais com o espírito de auto-interesse do que com o espírito de apoio voluntário implícito na nossa Sétima Tradição.

Todas as soluções que vemos para os problemas considerados neste artigo envolvem comunicação. Acreditamos que uma melhor comunicação sobre as necessidades dos nossos corpos de serviço resultariam em maior apoio dos grupos e membros de NA. A comunicação melhorada acarretaria em melhor prestação de contas da estrutura de serviço para nossos grupos e membros. Finalmente, acreditamos que uma melhor comunicação nos ajudaria a manter nosso foco em princípios espirituais como fé e confiança, nos afastando do medo, da desconfiança e do egocentrismo.

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