NARCÓTICOS ANÓNIMOS
Região Portuguesa

Quadro de Custódios do Serviço Mundial Boletim no 20

LIVRES DE PRECONCEITOS I E II

O que segue não é uma declaração de directriz do Quadro de Custódios do Serviço Mundial. Escrito em 1991, sua intenção é meramente estimular a reflexão e a discussão sobre o tópico do preconceito e como ele afecta Narcóticos Anónimos.

Comité de Assuntos Externos do WSB


O único requisito para ser membro é o desejo de parar de usar, não é mesmo? É isso que diz a nossa Terceira Tradição. Mas em alguns grupos de NA parece até que alguns outros requisitos para ser membro foram acrescentados. Embora isso possa não ser dito abertamente, a impressão que se tem desses grupos é a seguinte: "Você tem de descender das mesmas condições raciais ou étnicas ou sociais ou económicas ou educacionais ou sexuais, que nós, para ser aceito aqui. Ter apenas o desejo de parar de usar não é o bastante."

Em Julho, a Conferência de Serviço Mundial realizou uma oficina em Arlington, Virginia. Um painel focalizou parte de sua discussão na questão do preconceito em Narcóticos Anónimos. Os participantes sentiram que a discussão estava há muito ultrapassada e que nós, como uma irmandade, deveríamos começar a explorar mais a fundo os meios de "elevar nossa consciência" e, desse modo, começar a modificar nossas atitude e comportamentos. O propósito deste artigo é o de começar a elevar nossa compreensão de modo que, por fim, qualquer adicto em busca de recuperação, "independente de idade, raça, identidade sexual, credo, religião ou falta de religião", possa encontrar o que busca entre nós.

CONSCIÊNCIA


Não podemos começar a mudar, a não ser que estejamos cônscios de que existe uma necessidade de mudança. Como adictos, reflectimos a sociedade da qual descendemos. Trazemos connosco para a recuperação todos os nossos preconceitos, inclusive os de raça, classe e sexo. Aceitamos comportamentos inaceitáveis em nós mesmos e em cada um de nós, porque "sempre foi assim". Todos sofremos em maior ou menor grau devido a este tipo de pensamento; são coisas do mundo em que crescemos.

O que podemos fazer? Bem, negar nossa intolerância apenas contribui para que continuemos a pensar e nos comportar da velha maneira. Mas quando admitimos que discriminamos, podemos começar a abordar aquele pensamento e comportamento com as ferramentas da recuperação.

Em NA, nos dizem para "aparecer e contar a verdade". Quando adictos ouvem outros adictos partilharem sua dor e seus medos, algo maravilhoso acontece. Discussões abertas em nossas reuniões podem ser muito importantes para nos ajudarem a enxergar como o preconceito afecta nossa habilidade de nos recuperarmos e levar a mensagem aos outros. Escolher "Livres de Preconceitos" como tópico para debate nas reuniões, por exemplo, pode abrir a tampa dos defeitos que tentamos esconder uns dos outros, às vezes até de nós mesmos.

Apadrinhamento é outra ferramenta para ser colocada em acção. O que ocorreria se todos fizéssemos um mini inventário de nós mesmos, um inventário focalizado no preconceito, como o sentimos em nossas vidas e seu impacto na vida da nossa irmandade? E o que aconteceria se cada membro de NA conversasse com seu padrinho ou madrinha sobre seu medo de pessoas que vêm de outras condições ou têm outros estilos de vida? Sempre que trabalhamos os passos com mente e coração abertos, a cura começa a ocorrer.

ENTRANDO EM ACÇÃO


Quando aceitamos que somos de fato intolerantes, sem dar maiores desculpas, estamos prontos para entrar em acção. O milagre começa quando aceitamos que, como indivíduos e como irmandade, frequentemente ficamos aquém dos nossos próprios princípios. Sim, é isso que somos hoje - e, sim, hoje temos de mudar. Aceitação aqui não significa: "Bem, simplesmente as coisas são assim". Aceitação significa assumir a responsabilidade por nós mesmos e tomar coragem para mudar.

Na oficina de Arlington, alguns membros compartilharam suas próprias experiências de preconceito - não apenas as maneiras pelas quais sentiram seu ferrão cruel, mas as maneiras pelas quais infligiram esse ferrão nos outros. Algumas pessoas falaram que não foram abraçadas porque eram negras; que foram evitadas devido ao uso que faziam de medicação essencial e prescrita; que evitaram membros deficientes; que tiveram medo de pessoas com diferentes níveis educacionais; que evitaram todos que tinham preferências sexuais diferentes da sua. Algumas dessas coisas dificultaram sua própria recuperação; outras bloquearam seu papel de apoiar a recuperação dos outros: tudo isso foi doloroso para eles. Admitiram isso e pediram a todos nós, como uma irmandade, que os ajudássemos a se modificarem.

Sim, é verdade: descendemos de uma sociedade preconceituosa. No entanto, isto não significa que devemos permanecer para sempre bloqueados pelo preconceito. O programa de NA oferece liberdade, não apenas da drogadicção, mas dos defeitos de carácter insidiosos que nos impedem de vivermos vidas plenas, saudáveis e felizes. Trabalhando os passos, podemos transcender nossas deficiências. Ao fazermos isso, podemos estabelecer um exemplo uns aos outros, e para outros em nossa comunidade, sobre o que é a recuperação espiritual.

Como você pode "aparecer e contar a verdade" sobre preconceito em NA? Você pode:

1. Puxar o assunto numa reunião de discussão.

2. Entrar em contacto com seu comité regional de convenções e pedir que realizem uma oficina sobre preconceitos na próxima convenção.

3. Perguntar aos seus comités de serviço de área e regional se o preconceito afecta qualquer dos seus serviços.

4. Falar com seu padrinho ou madrinha sobre como o preconceito - o seu e o dos outros - lhe afecta e à sua recuperação. Fale também com aqueles que você apadrinha ou amadrinha.

5. Se o seu grupo realiza um inventário anual, peça que "o preconceito" seja um dos assuntos que ele examina.

O preconceito em NA fere toda a irmandade, desde o mais antigo veterano ao mais novo recém-chegado. Nós, como membros de uma irmandade baseada em princípios espirituais, não podemos e não devemos visar a nada menos que ficarmos livres de preconceitos.

LIVRES DE PRECONCEITOS, PARTE DOIS


Ao mesmo tempo que talvez não tenhamos tempo suficiente na reunião da conferência deste ano [1992] para fazer mais do que permitir discussões abertas sobre essa e outras questões, o quadro de custódios espera que estes pontos estimulem o diálogo e que as discussões continuem durante todo o ano nos fóruns da irmandade. Como um quadro, estamos comprometidos com o aprofundamento dessas discussões para nos ajudarem, como uma irmandade, a encontrar soluções. Em seguida estão os pontos de debate propostos:

- Como a conferência e seus participantes podem abordar efectivamente a questão do preconceito dentro da nossa irmandade e estabelecer um curso em direcção a ficarmos livres dos preconceitos?

- Discutir os desafios enfrentados por uma irmandade espiritual que existe no interior de culturas e sociedades pesadamente carregadas de preconceitos.

- Como membros de NA, como padrinhos ou madrinhas, como membros de grupos locais, como líderes na conferência, o que cada um de nós pode fazer para contribuir com o cumprimento das palavras do nosso Livrete Branco: "Qualquer um pode se tornar membro, independente de idade, raça, identidade sexual, credo, religião ou falta de religião".

- Unidade, não uniformidade, é vital para o crescimento de NA. À medida que nos recuperamos, emergimos como singulares, distintos e belos filhos de Deus. Como uma conferência, como podemos dar o exemplo incentivando a unidade, ao mesmo tempo que encorajamos a magnífica diversidade manifesta em Narcóticos Anónimos pelo mundo todo?

- Como recebemos recém-chegados que podem não se encaixar na "imagem" que temos de um adicto, em nossa comunidade particular de NA? Não teremos de cultivar nossa "tolerância", se podemos primeiro aprender a aplicar os princípios de aceitação, amor e compaixão.

- E os esforços de IP e HI? Nossas comunidades estão trabalhando para atingir todos os tipos de adictos de todos os patamares da vida? Quem não está sendo considerado?

- Como é que nós, como uma irmandade e como indivíduos, lidamos com os preconceitos inerentes dentro da nossa irmandade e dentro dos nossos próprios corações?

- De maneira específica, precisamos encorajar o debate do preconceito dentro de NA, pois este afectou e está afectando os seguintes: adictos gays & lésbicas, adictos hispânicos, adictos asiáticos, adictos mulheres, adictos idosos, adictos negros, adictos deficientes, adictos obesos, adictos profissionais, diferenças de línguas, diferenças religiosas, adictos ateus/agnósticos, "qualquer-um-diferente-de-nós".

Isto é apenas um começo, mas tudo começa com um primeiro passo, não é mesmo?

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